ENTREVISTA

APIP:A inovação industrial constrói-se através da colaboração entre tecnologia, conhecimento e indústria“. Num cenário pautado pela dupla transição, digital e climática, e pela forte pressão competitiva, a APIP sublinha que o futuro da inovação industrial reside na coesão de ecossistemas colaborativos que unam empresas, fornecedores tecnológicos, centros de investigação e decisores. Em entrevista exclusiva, Amaro Reis, Presidente da Direção da APIP, analisa com clareza os desafios estruturais e os labirintos legislativos que o setor enfrenta perante as ambiciosas metas ecológicas europeias.

  1. A APIP associa-se à ExpoProcessos enquanto parceiro estratégico de uma feira focada na inovação industrial e nos processos produtivos. O que motivou esta parceria e que tipo de impacto esperam que o evento possa gerar junto dos vossos associados e da indústria transformadora nacional?

A APIP considera a ExpoProcessos uma plataforma estratégica de aproximação entre indústria, tecnologia, conhecimento e inovação. Num contexto marcado pela dupla transição, digital e climática, tornam-se essenciais espaços de contacto direto entre empresas, fornecedores tecnológicos, centros de conhecimento e decisores, capazes de acelerar a modernização e a criação de valor.
Esta parceria surge precisamente porque acreditamos que o futuro da indústria transformadora portuguesa, particularmente do setor dos plásticos, dependerá da sua capacidade de integrar tecnologia, eficiência operacional, sustentabilidade e digitalização nos seus processos produtivos. Neste contexto, a ExpoProcessos representa um ambiente privilegiado para promover essa evolução, permitindo às empresas conhecer soluções concretas, identificar oportunidades de investimento e estabelecer parcerias estratégicas, numa lógica de reforço da competitividade e da resiliência industrial nacional e europeia.
Para os associados da APIP, o evento poderá funcionar como um catalisador de inovação, potenciando o acesso a novas tecnologias, automação, inteligência artificial, eficiência energética e soluções de economia circular aplicadas à indústria. Acima de tudo, esperamos que contribua para reforçar a competitividade da indústria nacional e para consolidar Portugal como um polo industrial moderno, resiliente e alinhado com as novas cadeias de valor europeias mais sustentáveis e digitalizadas.

  1. Num momento em que a indústria enfrenta desafios simultâneos de competitividade, eficiência energética, digitalização e sustentabilidade, que papel pode uma feira como a ExpoProcessos desempenhar na criação de oportunidades de negócio, transferência de conhecimento e aproximação entre empresas, tecnologia e indústria?

Num contexto industrial cada vez mais exigente e competitivo, eventos como este assumem um papel fundamental enquanto aceleradores de transformação. Hoje, a competitividade das empresas depende não apenas da capacidade produtiva, mas também da rapidez com que conseguem incorporar inovação, digitalização e eficiência nos seus processos, num quadro cada vez mais exigente em termos de descarbonização e gestão de recursos.
Uma feira especializada cria condições únicas para aproximar empresas industriais, fornecedores tecnológicos, startups, centros de investigação e decisores, promovendo a transferência de conhecimento e o contacto direto com soluções aplicadas à realidade industrial. Aquilo que pode parecer distante em termos tecnológicos torna-se mais acessível quando as empresas contactam com aplicações concretas e casos reais.
Além disso, estes eventos funcionam como plataformas de networking e geração de oportunidades de negócio, fundamentais para estimular investimento, cooperação industrial e desenvolvimento de novos projetos. A inovação industrial não acontece de forma isolada; constrói-se através de ecossistemas colaborativos onde indústria, tecnologia e conhecimento trabalham em conjunto, numa lógica de integração em cadeias de valor cada vez mais interligadas.
A ExpoProcessos poderá igualmente contribuir para sensibilizar as empresas para temas decisivos como a inteligência artificial, a automação avançada, a eficiência energética, a descarbonização e a circularidade, áreas determinantes para a competitividade futura da indústria portuguesa, nomeadamente no contexto das metas europeias de neutralidade carbónica e utilização eficiente de recursos.

  1. A União Europeia está a acelerar metas relacionadas com incorporação de reciclados, descarbonização industrial e responsabilidade alargada do produtor. A indústria portuguesa está efetivamente preparada para competir nesse novo paradigma europeu ou existe o risco de perda de competitividade face a mercados externos menos regulados?

A indústria portuguesa tem vindo a fazer um esforço muito significativo de adaptação às novas exigências europeias em matéria de sustentabilidade, circularidade e descarbonização. O setor dos plásticos, em particular, tem investido fortemente em inovação, incorporação de reciclados, eficiência energética, eco design e desenvolvimento de soluções mais sustentáveis, incluindo contributos relevantes para setores estratégicos como a alimentação, saúde, mobilidade e energias renováveis.
Contudo, é importante reconhecer que esta transição representa um enorme desafio económico e industrial. A Europa está a impor metas extremamente ambiciosas num curto espaço temporal, como se verifica no novo quadro legislativo associado às embalagens e resíduos de embalagens (PPWR), enquanto muitos mercados externos operam com níveis de exigência ambiental, social e regulatória substancialmente inferiores. Essa assimetria cria riscos reais de distorção concorrencial e de perda de competitividade para a indústria europeia.
O desafio passa pela necessidade de se assegurarem condições equilibradas de concorrência. É essencial garantir um verdadeiro level playing field, incluindo mecanismos que assegurem que os produtos importados cumprem padrões equivalentes aos exigidos na União Europeia.
A indústria dos plásticos tem empresas altamente resilientes, inovadoras e preparadas para esta transformação, mas será fundamental garantir políticas industriais europeias que valorizem a produção sustentável, promovam investimento, incentivem inovação e assegurem mecanismos eficazes de proteção da competitividade do tecido industrial europeu, incluindo o desenvolvimento de mercados funcionais para matérias-primas recicladas.

  1. A transformação industrial exige hoje investimento contínuo em inovação, automação e qualificação técnica. Na perspetiva da APIP, quais são atualmente os maiores desafios estruturais que as empresas do setor enfrentam para acompanhar esta evolução tecnológica sem comprometer competitividade e capacidade produtiva?

O principal desafio das empresas industriais é conseguir gerir uma transformação profunda num contexto simultaneamente marcado por forte pressão competitiva, aumento dos custos de contexto e elevada incerteza regulatória. A este contexto acrescem fatores como os custos energéticos, a volatilidade das cadeias de abastecimento e a crescente exigência regulatória europeia.
Hoje, as empresas são chamadas a investir em automação, digitalização, inteligência artificial, eficiência energética, descarbonização e novos modelos produtivos, mantendo ao mesmo tempo competitividade internacional e capacidade de resposta ao mercado. Esta conjugação é particularmente exigente para as PME industriais.
Um dos maiores desafios continua a ser o acesso ao investimento e à capacidade financeira necessária para acelerar esta modernização tecnológica. Outro ponto crítico prende-se com a escassez de recursos humanos qualificados nas áreas técnicas e industriais, uma realidade transversal a praticamente toda a indústria europeia.
Existe ainda um desafio adicional relacionado com a velocidade da mudança tecnológica. As empresas necessitam de previsibilidade regulatória e estabilidade estratégica para conseguirem planear investimentos de longo prazo. A constante evolução das exigências regulatórias dificulta a tomada de decisões de investimento sustentáveis no médio/longo prazo.
Apesar disso, acreditamos que a nossa indústria tem demonstrado uma capacidade de resiliência, adaptação e inovação. O importante será continuar a criar condições para que as empresas possam investir, inovar e crescer de forma sustentável, sem colocar em risco a sua competitividade global, assegurando simultaneamente a retenção de capacidade produtiva na Europa.

  1. O setor industrial fala frequentemente de circularidade, mas os números europeus mostram que a taxa de reutilização material continua abaixo das metas desejadas. Na prática, o que falta: investimento, inovação tecnológica, alteração comportamental dos consumidores ou uma maior coordenação política e industrial?

A resposta passa, na realidade, por uma combinação de todos esses fatores. A circularidade não depende apenas da indústria, mas também de políticas públicas consistentes, infraestrutura adequada, inovação tecnológica, comportamento do consumidor e criação de mercados para materiais reciclados, numa lógica de abordagem sistémica ao longo de toda a cadeia de valor.
A indústria tem investido significativamente em soluções de reciclagem, incorporação de reciclados, ecodesign e desenvolvimento de produtos mais sustentáveis. No entanto, continuam a existir limitações estruturais importantes, nomeadamente ao nível da recolha seletiva, da qualidade dos resíduos disponíveis para reciclagem e da viabilidade económica de determinados processos circulares.
Por outro lado, é essencial estimular a procura no mercado para matérias-primas recicladas. Enquanto os materiais reciclados continuarem menos competitivos do que as matérias-primas virgens será difícil acelerar de forma consistente a circularidade.
Existe também uma dimensão cultural e comportamental muito relevante. A economia circular exige maior sensibilização dos consumidores, melhores práticas de separação de resíduos e uma perceção mais positiva relativamente aos materiais reciclados e recicláveis.
Finalmente, será fundamental reforçar a coordenação entre indústria, entidades públicas, sistemas de gestão de resíduos, universidades e centros tecnológicos. Esta transição exige visão estratégica integrada, estabilidade regulatória e colaboração entre todos os intervenientes da cadeia de valor, bem como coerência entre objetivos ambientais e políticas industriais.